Inteligência Artificial Sistemas de Crescimento Soberania Estratégica

A inteligência artificial pode tornar os dados das PMEs mais úteis e acessíveis?

A inteligência artificial começa a reduzir uma barreira histórica para pequenas e médias empresas: a necessidade de investimentos elevados e competências técnicas especializadas para transformar informações dispersas em dados utilizáveis. O avanço não elimina os problemas de qualidade, integração e governança, mas amplia as possibilidades de recuperar registros que já existem e incorporá-los a processos comerciais e gerenciais. Se essa simplificação conseguir manter custos compatíveis com operações menores, poderá tornar acessíveis capacidades de inteligência empresarial antes restritas a organizações com estruturas tecnológicas mais desenvolvidas.

Essa oportunidade surge de um problema bastante conhecido na gestão. Empresas acumulam durante anos propostas comerciais, documentos fiscais, históricos de atendimento, planilhas financeiras e cadastros de clientes, sem necessariamente conseguir relacionar essas informações. Os sistemas registram as operações, mas nem sempre permitem responder às perguntas que surgem quando a direção precisa decidir. A empresa informatizou parte de sua rotina, porém continua dependendo de consultas manuais, conhecimento individual e interpretações fragmentadas.

O problema não é exclusivo das pequenas empresas, tampouco começou com a inteligência artificial. Engenharia de dados, análise de dados e Business Intelligence existem justamente para transformar registros em informações organizadas e relevantes para a operação. A diferença está nas condições de acesso a essas competências. Grandes organizações conseguem justificar investimentos em profissionais especializados, integração de sistemas e infraestrutura analítica. Para muitas PMEs, o custo técnico e financeiro desse trabalho pode superar o orçamento disponível ou o benefício inicialmente percebido.

A empresa possui dados, mas consegue utilizá-los?

Um ERP pode funcionar durante décadas sem oferecer uma visão suficientemente integrada da carteira de clientes. Uma planilha pode registrar milhares de operações corretamente e ainda exigir tratamento antes de servir a uma análise comercial. Contratos armazenados em PDF preservam informações importantes, mas sua utilização conjunta depende de identificar, extrair e relacionar conteúdos que não foram produzidos originalmente para esse fim.

A questão central é distinguir armazenamento de aproveitamento. Quando uma venda é registrada, o sistema cumpre uma função operacional. Quando esse registro pode ser relacionado ao histórico do cliente, às propostas anteriores, aos produtos adquiridos e às condições negociadas, passa a contribuir para decisões que ultrapassam a operação original. Essa segunda capacidade depende da qualidade, da organização e da possibilidade de relacionar os dados.

As pesquisas sobre digitalização empresarial ajudam a contextualizar o problema. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) identifica diferenças relevantes entre grandes organizações e PMEs na adoção de análise de dados e inteligência artificial. Entre as barreiras estão a insuficiência de competências especializadas, os custos de investimento, a necessidade de capacitação e a dificuldade de avaliar o retorno econômico dessas tecnologias.

No Brasil, a pesquisa TIC Empresas 2025, realizada pelo Cetic.br/NIC.br, encontrou utilização de sistemas de gestão de relacionamento com clientes (CRM) em 31% das empresas pesquisadas, contra 25% em 2024. A adoção de inteligência artificial alcançou 17%, chegando a 15% entre as empresas com 10 a 49 pessoas ocupadas. O levantamento abrange empresas com dez ou mais pessoas ocupadas e não representa a totalidade dos microempreendimentos brasileiros.

Esses indicadores não demonstram quantas empresas possuem dados desorganizados, nem permitem concluir que a ausência de CRM seja sinônimo de gestão deficiente. Mostram, entretanto, que a adoção de recursos tecnológicos varia e que a simples disponibilidade dessas ferramentas não deve ser confundida com capacidade analítica. Uma organização pode utilizar um sistema de gestão e continuar dependendo de exportações manuais, registros duplicados ou informações mantidas fora de sua base principal.

Na prática, isso significa que o patrimônio informacional pode crescer mais rapidamente do que a capacidade de administrá-lo. O custo de produzir os registros já foi incorporado à operação: vendedores negociaram, funcionários atenderam clientes, contratos foram emitidos e sistemas armazenaram os movimentos. O que permanece limitado é a capacidade de recuperar esse histórico e utilizá-lo de maneira sistemática.

Por que estruturar dados continua sendo difícil?

A organização convencional de informações envolve atividades que nem sempre são visíveis ao usuário final. É necessário identificar as fontes, compreender o significado dos campos, corrigir inconsistências, estabelecer relações e definir como os registros serão atualizados. Em sistemas distintos, a mesma informação pode aparecer com nomes, formatos ou critérios diferentes.

Um cadastro pode utilizar o CNPJ como identificador, outro pode empregar um código interno e uma terceira base pode registrar apenas o nome fantasia. Relacionar essas informações exige reconhecer quando representam a mesma empresa e quando identificam estabelecimentos, marcas ou organizações diferentes. A tarefa parece simples até surgir uma divergência que não pode ser resolvida apenas pela semelhança dos nomes.

Historicamente, parte desse trabalho utiliza processos de extração, transformação e carga de dados, conhecidos pela sigla ETL. São métodos consolidados, com ferramentas especializadas e capacidade para tratar grandes volumes de informações. O desafio para uma PME está na necessidade de configurar essas operações, manter regras consistentes e adaptar integrações quando os sistemas ou formatos de origem mudam.

Nem toda empresa precisa de uma equipe permanente de engenharia de dados. Entretanto, muitas demandas pontuais também exigem conhecimentos que não fazem parte da rotina de um gestor comercial, financeiro ou administrativo. A organização pode saber exatamente qual informação procura e ainda não possuir os meios técnicos para obtê-la sem contratar serviços especializados.

É nesse intervalo entre a necessidade empresarial e a capacidade técnica disponível que a evolução recente da IA merece atenção.

O que muda com a abstração tecnológica?

A abstração tecnológica permite que funções complexas sejam utilizadas por meio de interfaces mais simples, sem exigir que o operador compreenda todos os mecanismos envolvidos. No contexto da inteligência artificial, uma das mudanças é a possibilidade de interpretar documentos e instruções em linguagem natural para produzir informações estruturadas.

Um sistema pode receber um conjunto de propostas comerciais em formatos diferentes e ser instruído a identificar datas, clientes, produtos, valores e condições de negociação. Em vez de desenvolver uma rotina específica para cada apresentação documental, o modelo utiliza recursos de interpretação contextual para reconhecer os elementos solicitados. O resultado pode ser representado em tabelas, arquivos estruturados ou registros destinados a outros sistemas.

Outra possibilidade envolve a consulta a bases existentes. Tecnologias conhecidas como Text-to-SQL procuram traduzir perguntas feitas em linguagem natural para consultas executáveis em bancos de dados relacionais. Um gestor poderia perguntar quais clientes deixaram de comprar determinado produto nos últimos doze meses, sem necessariamente dominar a linguagem SQL.

Essas capacidades não substituem a estrutura de armazenamento, as relações entre os registros ou as regras de negócio. O que podem reduzir é parte do esforço necessário para construir interfaces, interpretar formatos heterogêneos e realizar tarefas que antes exigiam programação específica.

O movimento comercial de empresas como AWS, Google e Microsoft acompanha essa direção. Plataformas recentes procuram reunir pesquisa, acesso a documentos, análise e automação em experiências de utilização mais simples. O Amazon Quick e o Gemini Enterprise são exemplos dessa tentativa de aproximação entre ferramentas de IA e processos empresariais. Sua disponibilidade comercial, entretanto, não comprova que consigam realizar qualquer integração com baixo custo ou enriquecer dados empresariais com qualidade suficiente.

O valor para as PMEs dependerá do quanto essas plataformas efetivamente simplificam o trabalho. Se uma implantação anunciada como acessível exigir uma arquitetura complexa de serviços, desenvolvimento extensivo e manutenção especializada, parte importante da promessa econômica terá se perdido.

Recuperar dados existentes pode revelar oportunidades atuais

Em uma experiência recente de consultoria da Nseven, uma empresa possuía aproximadamente 2.400 clientes inativos identificados em uma base extraída de seu ERP. O cruzamento com outra base, composta originalmente por cerca de 11 mil cadastros, permitiu complementar informações de contato e organizar uma classificação comercial mais útil.

Após esse tratamento, aproximadamente 1.727 clientes inativos tinham e-mail identificado. Entre eles, 785 apresentavam apenas uma compra no histórico e 942 possuíam duas ou mais compras. Esse segundo grupo passou a merecer atenção diferenciada, enquanto os registros de compra única puderam ser examinados com critérios de valor e recorrência, evitando que a equipe dedicasse o mesmo esforço a oportunidades de naturezas distintas.

A classificação incorporou também o valor histórico de compras, grupos de produtos efetivamente adquiridos e estados de acompanhamento comercial. Uma aplicação de IA passou a apoiar a interpretação dos registros e a preparação de mensagens relacionadas à oferta da empresa. Nos casos mais relevantes, o contexto fornecido pela gestão continua necessário para aprimorar as abordagens.

É importante distinguir o resultado tecnológico do resultado comercial. Organizar uma base de clientes inativos não significa recuperá-los. Tampouco identificar oportunidades equivale à assinatura de novos contratos. A contribuição inicial foi tornar o histórico mais acessível, segmentar a carteira e criar condições para que a equipe examinasse oportunidades anteriormente pouco exploradas.

O exemplo demonstra também que não é necessário iniciar com uma arquitetura sofisticada de agentes autônomos. A solução utilizou dados existentes, tratamento direcionado e uma aplicação de IA vinculada a um processo de negócio específico. O conhecimento humano permaneceu necessário para definir a finalidade, interpretar as informações e conduzir a execução comercial.

A relevância econômica está no reaproveitamento de um recurso cujo custo de produção já havia sido absorvido pela operação. A empresa não precisou começar pela aquisição de milhares de novos contatos. Começou examinando o relacionamento comercial que já havia construído e registrado ao longo do tempo.

Esse princípio pode ser aplicado a outros processos, respeitadas as diferenças entre setores. Históricos de propostas, contratos, solicitações de manutenção, registros de atendimento e informações sobre fornecedores podem conter elementos úteis para decisões futuras. A identificação do valor depende da pergunta empresarial que orienta a análise, da disponibilidade dos registros e da confiabilidade do tratamento realizado.

O problema da precisão permanece

A capacidade de produzir informações estruturadas não garante que elas estejam corretas. Um modelo pode gerar um arquivo JSON perfeitamente válido e preencher incorretamente o nome de uma empresa, o valor de um contrato ou uma data de vencimento. A conformidade do formato indica que a informação pode ser processada por outro sistema; não comprova a veracidade do conteúdo.

Essa distinção aparece em pesquisas sobre extração estruturada e utilização de modelos de linguagem em bases empresariais. O estudo Spider 2.0, por exemplo, examina tarefas complexas de geração de consultas e transformação de dados em ambientes corporativos. Seus resultados demonstram dificuldades relevantes para modelos avaliados em condições que exigem compreender estruturas extensas, documentação técnica e múltiplas operações.

Esses benchmarks não devem ser transportados diretamente para todas as aplicações em PMEs. Uma base comercial com algumas milhares de linhas, campos conhecidos e finalidade delimitada pode representar um problema muito diferente daquele encontrado em ambientes corporativos com milhares de colunas e regras distribuídas entre sistemas. A pesquisa demonstra limites técnicos importantes, mas não estabelece uma taxa universal de falha para qualquer processo empresarial.

Na operação, a confiabilidade depende de controles proporcionais ao risco. Identificadores empresariais podem ser confrontados com fontes oficiais; registros duplicados podem ser detectados por regras de consistência; valores financeiros podem ser submetidos a validações determinísticas; informações incertas podem permanecer pendentes de confirmação. Algumas atividades exigirão revisão humana individual, enquanto outras poderão utilizar verificações automáticas e análise por exceção.

A intensidade desses controles também interfere na viabilidade econômica. Se a correção dos resultados exigir mais trabalho do que o processo original, não haverá ganho operacional relevante. Por outro lado, uma ferramenta capaz de organizar informações confiáveis, identificar inconsistências e separar os casos duvidosos poderá reduzir esforço mesmo sem atingir automação integral.

O objetivo não deve ser eliminar toda intervenção humana, mas avaliar onde ela produz maior valor e onde tarefas repetitivas podem ser simplificadas sem comprometer a operação.

Quando a informação organizada se torna um ativo?

O simples armazenamento de registros em um banco de dados não transforma automaticamente a informação em patrimônio útil. Para adquirir valor operacional, ela precisa possuir significado, confiabilidade e condições de reutilização.

Uma base comercial recuperada pode apoiar a identificação de clientes inativos, mas seu aproveitamento não termina na primeira campanha. As informações qualificadas podem alimentar novos processos, receber atualizações, preservar o histórico das abordagens e contribuir para decisões futuras. A continuidade desse uso é o que diferencia uma intervenção pontual de uma capacidade incorporada à empresa.

Também importa quem controla o resultado. Quando informações enriquecidas permanecem exclusivamente dentro de uma plataforma externa, sua reutilização pode depender de contratos, formatos proprietários ou restrições de exportação. A possibilidade de armazenar registros em sistemas controlados pela própria organização, com padrões abertos e mecanismos adequados de acesso, reduz essa dependência.

Isso não significa que toda PME deva desenvolver seu próprio software ou manter servidores físicos. Significa preservar condições práticas de acesso, exportação, integração e continuidade operacional. A tecnologia contratada pode executar parte relevante do trabalho sem que o conhecimento resultante fique inacessível fora dela.

Esse cuidado é especialmente importante quando os registros passam a orientar atividades comerciais ou gerenciais. Uma informação equivocada pode ser corrigida; um histórico sem proveniência, critérios de atualização ou possibilidade de auditoria torna essa correção muito mais difícil.

O custo da inteligência empresarial pode começar a mudar

Durante anos, a organização sistemática de dados foi economicamente mais acessível a empresas capazes de manter profissionais especializados e projetos dedicados. A evolução recente da IA começa a oferecer alternativas para demandas menores e mais delimitadas, especialmente na interpretação de documentos, classificação de registros, consulta a bases e preparação de informações estruturadas.

Ainda não existem evidências suficientes para afirmar que essa evolução tenha eliminado as barreiras econômicas de acesso à inteligência empresarial nas PMEs brasileiras. O custo total depende da implantação, dos sistemas envolvidos, da qualidade das fontes, da necessidade de revisão e da manutenção posterior. Ferramentas com assinaturas acessíveis podem exigir serviços adicionais que alteram completamente a equação financeira.

Mas já é possível discutir a oportunidade em outros termos. Uma empresa não precisa necessariamente começar por um grande projeto de transformação digital para descobrir se seus registros históricos podem contribuir para uma decisão relevante. Pode começar por uma base delimitada, um problema comercial conhecido e uma aplicação cuja utilidade seja verificável.

A pergunta que orienta esse investimento não deveria ser quantos agentes de IA uma plataforma consegue executar, nem quantos relatórios produz em poucos minutos. Para a gestão, importa saber quais informações a operação já possui, por que elas permanecem pouco aproveitadas e quanto custaria torná-las confiáveis e utilizáveis.

Se a abstração tecnológica continuar reduzindo parte desse esforço, a consequência poderá ser relevante para empresas que historicamente ficaram afastadas de soluções mais avançadas de análise. Não porque a tecnologia tenha finalmente eliminado a necessidade de compreender o negócio, mas porque uma parcela do trabalho técnico necessário para utilizar suas informações começa a tornar-se mais acessível.

O ponto de partida permanece concreto: identificar uma fonte de dados existente, reconhecer uma oportunidade de utilização e comprovar que o resultado melhora a capacidade de agir. Para uma PME, recuperar o valor de um histórico comercial esquecido pode ser uma aplicação de inteligência artificial mais relevante do que contratar outra plataforma para produzir relatórios sobre informações que a própria empresa ainda não consegue organizar.

Fernando Gualberto
Diretor da Nseven Comunicação Empresarial

Notas de apoio

1. Cetic.br/NIC.br — TIC Empresas 2025. Pesquisa nacional sobre adoção de tecnologias digitais, sistemas CRM, inteligência artificial e práticas de utilização de TIC pelas empresas brasileiras. A população pesquisada contempla empresas com dez ou mais pessoas ocupadas.

2. OCDE — The Digital Transformation of SMEs. Relatório sobre diferenças de digitalização por porte empresarial, barreiras de adoção, competências, análise de dados, custos e utilização de serviços tecnológicos externos.

3. Lei et al. — Spider 2.0: Evaluating Language Models on Real-World Enterprise Text-to-SQL Workflows. Estudo acadêmico sobre o desempenho de modelos de linguagem em tarefas complexas envolvendo bancos de dados empresariais. Os resultados referem-se às configurações experimentais avaliadas e não devem ser generalizados para todas as aplicações comerciais de IA.

https://arxiv.org/abs/2411.07763

4. Amazon Web Services — Referência de plataforma comercial que reúne capacidades de pesquisa, análise de dados, agentes e automação. A existência desses recursos declarados não constitui comprovação independente de sua efetividade em PMEs brasileiras.

5. Google Cloud — Gemini Enterprise. Referência de plataforma empresarial voltada à pesquisa corporativa, integração de informações e agentes de IA.

6. Experiência de consultoria Nseven. O caso mencionado envolve aproximadamente 2.400 clientes inativos, dos quais cerca de 1.727 foram associados a e-mails após o cruzamento dos registros com outra base comercial. Os dados são aproximados, referentes a um processo em andamento. Não representam clientes reativados ou receita adicional comprovada. A identificação da empresa foi preservada.

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