Inteligência Artificial Pontos de Inflexão Sistemas de Crescimento Soberania Estratégica

IA, agentes e a conversa de grego: por que a tese global ainda não aterrissou em 90% das empresas brasileiras

Nos últimos meses, uma mesma linha de raciocínio vem aparecendo em entrevistas, treinamentos e discursos de referência sobre IA aplicada ao trabalho. A formulação muda um pouco, o tom varia entre o estratégico e o pedagógico, mas a espinha dorsal é a mesma: a maioria das pessoas ainda usa IA de forma superficial; o valor real não está em perguntar melhor, mas em mudar a forma de trabalhar; e o próximo estágio da vantagem competitiva virá da combinação entre humano, contexto, processo e agentes.

Essa linha aparece com clareza nas falas de Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn e investidor de tecnologia, e de Conor Grennan, Chief AI Architect da NYU Stern School of Business e fundador da AI Mindset, ambos em entrevistas conduzidas por Marina Mogilko, criadora do canal Silicon Valley Girl. Nas conversas, Reid fala de um mundo em que cada profissional opera com um conjunto de agentes, o software se torna mais barato de construir e manter, e o trabalho passa a ser menos execução direta e mais condução de inteligência. Conor, por sua vez, insiste que a maior parte do mercado ainda trata IA como busca, quando deveria tratá-la como apoio cognitivo, máquina de processo e parceira de raciocínio.

A tese é coerente. O problema é outro: ela parte de um estágio de maturidade que o Brasil corporativo, em sua maioria, ainda não alcançou.

Essa é a fricção central que o debate precisa enfrentar. Em boa parte das empresas brasileiras, o problema ainda não é curadoria pós-produção, memória entre ferramentas ou orquestração de agentes. O problema anterior continua em aberto. A IA ainda entra de forma rasa, difusa, improvisada e cognitivamente pobre. Em muitos casos, nem entra de verdade. Vira assistente ocasional, enfeite narrativo ou verniz de inovação.

É por isso que parte relevante da conversa global sobre IA soa, no Brasil, como conversa de grego. Fala-se de arquitetura cognitiva em ambientes que ainda não dominam sequer a formulação básica de problemas, a escrita mínima de contexto ou a diferença entre automação útil e improviso digital.

A coerência das teses globais

Há uma convergência evidente entre o que Reid Hoffman e Conor Grennan estão dizendo.

Reid empurra a discussão para a frente. Ele fala de um cenário em que a IA deixa de ser ferramenta pontual e se torna infraestrutura de trabalho. O profissional deixa de ser apenas executor e passa a atuar como condutor de agentes, integrador de contexto, formulador de processo e revisor de qualidade. Sua leitura também aponta para uma mudança estrutural no software: se o custo de gerar, adaptar e manter aplicações cai com IA, o valor migra do catálogo genérico de funcionalidades para o contexto, a integração, o workflow e a inteligência proprietária.

Conor opera no estágio anterior, mas com lógica semelhante. Ele repete que a adoção real é muito menor do que parece, que quase todo mundo “usa” IA, mas poucos de fato mudaram sua forma de trabalhar. A analogia com Excel é precisa: declarar uso não significa domínio nem transformação operacional. Para ele, o ponto central está em sair da lógica de comando e resposta e passar a usar a IA como apoio de processo, revisão, provocação e iteração.

As duas posições se encontram em pelo menos quatro teses:

A primeira é que a adoção real é menor do que a narrativa pública sugere.
A segunda é que o valor está menos na ferramenta e mais na mudança de comportamento e processo.
A terceira é que o profissional relevante será aquele que souber formular, orientar, revisar e transformar o fluxo de trabalho.
A quarta é que a empresa que internalizar essa mudança antes terá vantagem estrutural.

Até aqui, a tese global é consistente.

Onde o Brasil quebra a sequência lógica

O erro começa quando essa tese é importada para o Brasil sem localização.

No ecossistema que produz esse discurso, já se assume um ambiente onde a IA entrou no cotidiano do trabalho de forma relativamente consistente. O problema, então, passa a ser outro: como aprofundar o uso, como criar vantagem com agentes, como elevar a maturidade, como sair do uso episódico e chegar à reinvenção do processo.

No Brasil, em grande parte das empresas, a sequência nem chegou aí.

Ainda há equipe comercial que envia proposta para cliente estratégico com mensagem indigente, sem contexto, sem construção de valor e sem qualquer sinal de leitura do destinatário. Ainda há operação tratando output genérico de LLM como insight original. Ainda há lideranças fascinadas com “o que a ferramenta faz”, mas incapazes de formular um problema com densidade suficiente para extrair qualquer coisa útil. Ainda há times que não sabem o que perguntar, não sabem o que guardar, não sabem o que validar e, mais grave, não sabem distinguir texto elegante de inteligência aplicável.

Esse é o ponto que muda tudo.

A discussão sobre multiagentes, companheiros cognitivos, co-CEO de IA, memória entre modelos e orquestração de fluxos parte de um patamar em que a empresa já superou o básico. Só que a realidade brasileira ainda é marcada por outra camada de deficiência: falta linguagem operacional, falta repertório, falta critério, falta contexto, falta disciplina de processo e sobra improviso.

Em outras palavras: o problema brasileiro ainda é menos “como orquestrar inteligência” e mais “como evitar que o primeiro contato com IA produza uma pilha digital de lixo de luxo”.

A pilha digital de lixo de luxo

Esse é um dos efeitos mais perigosos da adoção mal localizada.

A IA dá forma, velocidade, acabamento e aparência de sofisticação a materiais que continuam cognitivamente fracos. Ela melhora superfície antes de existir substância. E isso cria um risco novo: a empresa passa a acreditar que produziu valor porque produziu algo com boa aparência.

É aqui que entra uma das principais distorções do momento. O ativo não está em “salvar toda a conversa” com a LLM. O ativo não é o volume de chat, nem o acúmulo bruto de respostas, nem a ilusão de profundidade produzida por horas de interação. O que precisa ser documentado é a inteligência produzida, o método que levou até ela e a forma de reaplicar esse resultado na operação.

Sem isso, o que a IA entrega não é ativo. É entulho cognitivo com acabamento premium.

Essa distorção é central para qualquer empresa que queira construir Ativo de Inteligência. Porque ativo não é texto. Ativo é contexto organizado, método reaplicável, raciocínio retido e processo convertido em patrimônio do CNPJ.

Quando a conversa global vira Terreno Alugado

Outro ponto pouco discutido nas entrevistas é o problema da dependência estrutural.

Quando Reid e Conor falam em usar grandes LLMs como apoio contínuo de trabalho, há uma camada de mérito prático. De fato, o ganho de velocidade e de amplitude cognitiva é real. O problema é que, sem arquitetura própria, isso empurra a empresa ainda mais para Terreno Alugado.

A empresa resolve mais coisas, mais rápido, com melhor acabamento. Mas resolve em ambiente externo. O contexto fica no histórico da plataforma. O aprendizado se dispersa entre contas individuais. A memória se dilui em fornecedores. A organização ganha eficiência e perde soberania.

Isso importa porque a vantagem não está apenas em usar IA. A vantagem está em saber o que volta para dentro da casa.

Essa distinção separa consumo de inteligência de construção de patrimônio. É a diferença entre trabalhar em cima de um copiloto e construir uma infraestrutura que transforma cada interação útil em base proprietária, repertório técnico, CRM qualificado, playbook, biblioteca de objeções, padrão decisório e memória institucional.

Sem isso, a empresa não avança para o status de Dono da Própria Casa. Continua apenas alugando inteligência.

O Brasil real ainda está preso ao Teto da Improvisação

Esse talvez seja o ponto mais negligenciado pela conversa global.

A ideia de que o funcionário pode virar um “chief AI architect” informal da própria área, reinventar processos com IA e escalar isso pela organização é correta. Em tese. O problema é que isso supõe um mínimo de estrutura prévia: processo legível, critério de qualidade, domínio de contexto, linguagem funcional e alguma capacidade de abstração.

Na prática brasileira, boa parte das empresas ainda opera muito abaixo disso.

O que se chama de “adoção” frequentemente é:
uso esporádico,
prompt genérico,
output superficial,
falta de validação,
ausência de retenção,
nenhuma política de uso,
nenhuma classificação de informação
e total confusão entre produtividade aparente e inteligência organizacional.

Esse é o Teto da Improvisação em sua forma mais contemporânea. Antes, a improvisação limitava escala. Agora, ela pode ser acelerada. A IA não elimina o teto. Ela o antecipa.

O resultado é perigoso: a empresa automatiza uma operação que já era cognitivamente fraca. Ganha velocidade sem ganhar critério. Ganha volume sem ganhar densidade. Ganha resposta sem ganhar estrutura.

Governança de Papel continua sendo o problema invisível

Há outro silêncio recorrente nas teses globais: governança.

Nas entrevistas, fala-se de comportamento, processo, contexto, coach, memória, fluxos e revisão. Quase não se fala de classificação da informação, cadeia de custódia, revisão humana obrigatória, retenção, segregação de dados sensíveis, trilha de decisão, política formal de uso ou controles reais de acesso.

Essa omissão é tolerável em conteúdo educacional de adoção. Ela deixa de ser tolerável quando a empresa começa a usar IA em processos comerciais, contratuais, financeiros, operacionais ou decisórios.

É aqui que aparece a Governança de Papel. A empresa redige política bonita, anuncia transformação, compra ferramenta, fala em IA no conselho e até monta comitê. Mas não define o que pode ou não pode entrar, o que precisa voltar, quem valida, onde retém, como audita e o que prova diligência.

No B2B brasileiro, isso não é detalhe técnico. É risco comercial.

Sem evidência, sem retenção, sem rastreabilidade e sem fundação digital minimamente séria, a empresa continua vulnerável à Exclusão Silenciosa. Ela pode até se declarar inovadora. O comprador automatizado, o motor de risco ou o filtro de homologação não têm obrigação de acreditar.

O que as teses globais acertam

Seria um erro tratar essas entrevistas como hype vazio.

Elas acertam em pontos importantes. Acertam ao mostrar que a maior parte do mercado ainda opera muito abaixo do potencial da tecnologia. Acertam ao insistir que o valor não está em coleção de ferramentas, mas em mudança de comportamento. Acertam ao deslocar a conversa do uso decorativo para o redesenho de processo. E acertam ao mostrar que o profissional do futuro imediato será menos digitador de tarefa e mais curador de qualidade, contexto e execução.

O erro não está no conteúdo. Está na importação literal.

O que a leitura Nseven acrescenta

A leitura Nseven não contradiz a tese global. Ela localiza a tese global.

Reid Hoffman fala de uma economia em que agentes, software barato, inteligência aplicada e processo redesenhado já estão reconfigurando trabalho e vantagem competitiva. Conor Grennan fala do comportamento necessário para entrar nesse jogo. Ambos descrevem um futuro muito plausível.

Mas esse futuro não entra no Brasil por osmose.

Ele exige tradução operacional. Exige reconhecer que, em boa parte das empresas, ainda faltam fundamentos elementares de linguagem, processo, retenção, curadoria e governança. Exige admitir que a adoção não é homogênea. Exige abandonar a fantasia de que basta “dar acesso ao chat” para a organização se tornar inteligente.

No Brasil, a prioridade imediata não é discutir multiagentes como se fossem camada natural do cotidiano. A prioridade é outra:
ensinar a formular problema,
elevar o padrão mínimo de contexto,
definir o que vira ativo,
reter o que importa,
estabelecer governança real,
reduzir dependência de contexto externo
e construir uma Infraestrutura Comercial Soberana capaz de transformar interação em patrimônio.

Só depois disso a conversa sobre orquestração deixa de ser conversa de grego.

Veredito

A tese global sobre IA está ficando mais coerente. O mercado internacional já consolidou um discurso relativamente estável: menos obsessão por ferramenta, mais foco em processo, contexto, comportamento e agentes.

O Brasil, porém, ainda vive uma fratura de maturidade.

Em uma ponta, há empresas e lideranças capazes de discutir memória, repetibilidade, fluxo multiagente e redesenho do trabalho. Na outra, está a maioria: operações que ainda mal sabem formular problema, avaliar qualidade, documentar aprendizado ou distinguir resposta bonita de inteligência útil.

É por isso que o debate precisa ser localizado.

Falar em agente de orquestração para equipes que ainda não dominam o básico não é vanguarda. É descolamento. E estratégia descolada da maturidade real só produz duas coisas: frustração e teatro corporativo.

A empresa brasileira que quiser tirar valor sério da IA precisa começar menos pela fantasia do futuro e mais pela estrutura do presente.

Sem isso, todo o resto vira apenas uma versão mais sofisticada do improviso.

Fernando Gualberto
Estrategista & CEO da Nseven Comunicação Empresarial
Conectar no LinkedIn

© Copyright 2026 | NSeven – Comunicação Empresarial | Membro do Google for Startups Cloud Program