A cobertura midiática sobre o PISA 2025 pode induzir uma leitura confortável: os resultados do Brasil ficaram estáveis.
Mas estabilidade não é recuperação.
Os dados da OCDE mostram que, entre estudantes brasileiros de 15 anos avaliados em 2025, 72% não alcançaram o nível mínimo de proficiência em Matemática. Em Ciências, o percentual foi de 52%. Em Leitura, 51% ficaram abaixo do nível 2 — a referência básica adotada pelo PISA para avaliar se estudantes conseguem mobilizar conhecimentos em situações práticas.
O problema não termina na escola. Ele chega à empresa como custo de retrabalho, falha de processo, baixa qualidade de dados, exposição a fraudes e dificuldade de adoção segura de tecnologia.
Não se trata de reduzir pessoas a resultados de uma prova. Tampouco de atribuir ao trabalhador a responsabilidade por uma falha estrutural da educação brasileira.
Trata-se de reconhecer uma realidade de gestão: organizações não podem projetar operações críticas supondo que toda instrução será interpretada corretamente, que todo dado será preenchido com precisão ou que toda mensagem digital suspeita será identificada a tempo.
Leitura crítica também é controle de segurança
Segurança da informação não depende apenas de firewall, antivírus ou autenticação multifator.
Ela também depende da capacidade de reconhecer uma solicitação fora do padrão, validar uma fonte, questionar urgências artificiais e interromper uma ação antes que ela se torne fraude. Phishing, alteração fraudulenta de dados bancários, pedidos falsos de pagamento e engenharia social exploram pessoas — mas prosperam quando os processos são frágeis.
Uma política enviada por e-mail não é um controle. Treinamento genérico também não.
Controles reais incluem fluxos claros, validações em sistema, confirmação em canal alternativo, menor privilégio, segregação de funções, autenticação forte e linguagem operacional que reduza ambiguidade.
Dados ruins não ficam no CRM
Quando cadastros, origens de leads, etapas comerciais, custos e contratos são registrados sem padrão ou validação, o problema não é administrativo. É financeiro.
CAC, LTV, previsão de receita, margem por cliente, churn e produtividade comercial dependem da integridade dos dados. Se a base está contaminada, o dashboard apenas torna o erro mais apresentável.
A empresa paga em duas frentes:
- Pelo erro que entra na operação.
- Pelo tempo da liderança e das equipes que precisam localizar, corrigir e compensar o erro depois.
O processo que exige preenchimento perfeito, cálculo manual correto e interpretação uniforme para funcionar já é um processo de alto risco.
IA não substitui julgamento; ela exige governança
O debate sobre IA ainda gira, em grande parte, em torno de substituição de postos de trabalho. Essa é uma discussão incompleta.
O desafio imediato é outro: empresas estão introduzindo IA em ambientes onde a leitura crítica, a avaliação de fontes, a disciplina de dados e a governança de acesso já são insuficientes.
Uma resposta de IA pode parecer convincente e ainda estar errada. Um prompt pode conter informação sensível. Uma automação pode acelerar um processo ruim. Um agente autônomo sem limites, logs, permissões e revisão humana pode escalar um erro em minutos.
A IA cria eficiência quando opera sobre dados confiáveis, processos claros e controles verificáveis. Sem isso, ela apenas automatiza incoerências em maior velocidade.
Automação defensiva protege a margem
A resposta não é substituir pessoas por máquinas. É desenhar a operação para que falhas previsíveis não se transformem em perdas previsíveis.
Automação defensiva significa:
- Validar dados na origem, antes que contaminem relatórios e decisões.
- Reduzir trabalho manual em rotinas repetitivas e sensíveis.
- Criar trilhas de auditoria para decisões, alterações e acessos.
- Limitar permissões de acordo com risco e necessidade operacional.
- Isolar dados críticos e controlar o uso de IA sobre informações corporativas.
- Exigir revisão humana onde há impacto financeiro, legal, reputacional ou de segurança.
- Transformar treinamento em comportamento operacional verificável, não em conteúdo consumido.
O déficit educacional é uma questão nacional. A resiliência operacional é uma decisão empresarial.
Empresas que dependem exclusivamente de atenção individual, interpretação perfeita e correção manual carregam um risco oculto no próprio modelo de operação. Empresas que estruturam dados, controles e automações com governança protegem não só a segurança: protegem a margem, a reputação e a capacidade de escalar.
Nota: Os dados citados neste artigo são do PISA 2025 Results (Volume I): Future-Ready Students, da OCDE. A análise utiliza a nota específica do Brasil e o relatório internacional completo, ambos disponíveis na fonte primária oficial, disponíveis no link abaixo.
Fonte primária: PISA 2025 Results (Volume I) — OCDE
Fernando Gualberto
Estrategista & CEO da Nseven Comunicação Empresarial
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